Entrevista a Jean-Yves Ferri e Didier Conrad

Entrevista a Jean-Yves Ferri e Didier Conrad 2019-10-15T12:56:25+01:00

Por que razão resolveram dar o protagonismo a uma personagem feminina, e ainda por cima a uma adolescente?

 JYF : No início, a minha ideia era tirar da gaveta o próprio Vercingétorix. O problema é que isso poderia vir a conflituar demasiado com a História, com «H» maiúsculo. Com efeito, como explicar que os gauleses da aldeia não tenham intervindo para socorrer o seu chefe histórico?
Por fim, concluí que este deveria manterse como até aqui, isto é, como um simples prólogo mítico das aventuras de Astérix.
Assim, acabei por preferir explorar a ideia de uma filha que ele tivesse tido, o que – claro está! – é algo completamente inventado! E foi assim que o tema do álbum começou a girar em torno da adolescência…
Este tema nunca mais tinha sido abordado desde a personagem do jovem Atrevidix (Astérix e os Normandos) e pensei que atualmente o mesmo poderia ser tratado de forma diferente.

DC : Ambos tínhamos vontade de desenvolver personagens femininas até porque, à exceção da Zitinha em O Presente de César, não houve adolescentes femininas no Astérix. Após 37 títulos, é sempre preferível assuntos e tipos de personagens pouco explorados pelos criadores da série se quisermos encontrar ideias novas e trazer uma certa frescura.

Falem-nos do contexto histórico no qual se inspiraram para conceber este álbum.

 JYF : A ação situa-se poucos anos depois da derrota de Alésia. A ideia era imaginar uma rede secreta de arvernes que tivessem permanecido fiéis a Vercingétorix.
É claro que eles tratam (como podem) da filha do saudoso chefe; e também do seu torque, uma espécie de colar honorífico que ela recebeu como herança do pai. Como sempre, tento utilizar certos elementos históricos.
É o caso da alusão ao clima de divisão que envolveu o cerco de Alésia, ou da forma como os romanos conduziam os seus combates no mar. Astérix é uma série para rir, mas o humor funciona sempre melhor se tiver uma base plausível.

DC : Isso também nos permitia recriar novas personagens pitorescas, nomeadamente os arvernes com o seu sotaque tão peculiar!

Ambos têm a mesma idade que as vossas personagens. Que relação tiveram com a personagem Astérix desde a vossa infância?

 JYF : Sim, tenho a mesma idade do Astérix. Nasci em 59 d.C. Isso cria forçosamente laços com a série! (risos)
Então, quando me confiaram a responsabilidade do argumento, coloquei o capacete e pus-me a remexer nas arcas do Panoramix.
Mas o Astérix é fruto do encontro entre Goscinny e Uderzo, duas personalidades bem específicas e inimitáveis. Não descobri portanto nenhuma «receita»…
Em cada novo álbum tentamos apenas conservar um certo espírito da série, que tem a ver com esta mistura do antigo e do atual que faz sempre rir.
A ideia é partir em cada álbum numa direcção diferente, inspirada no mundo de hoje, o qual, felizmente, nos fornece todos os dias – como é sabido – uma quantidade de temas gratificantes!

DC : Li o meu primeiro Astérix com 8 ou 9 anos. Já gostava muito de BD e o Astérix foi uma revelação. Ainda hoje me surpreende ter tido a sorte de ser escolhido para dar continuidade a esta série única na história da BD.